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De início, gostaria de felicitar o Dr. Joel Rennó Jr. pela
iniciativa e agradecer o convite e o apoio de sua equipe para participar
deste evento, que me é ainda mais caro por ser filha e irmã
de médicos.
Vou fazer uma breve introdução sobre a sociedade de consumo
na qual vivemos e as conclusões dos Estados Gerais da Psicanálise
e, depois, gostaria de me aprofundar sobre a abordagem da depressão
na própria constituição do sujeito e relacioná-la
à menopausa, apoiando-me na extensa e detalhada tese da Dra. Marie
Christine Laznik, a qual investiga grande parte da bibliografia psicanalítica
existente sobre o assunto e que divulga seu livro neste evento, O Complexo
de Jocasta, feminilidade e sexualidade ao prisma da psicanálise,
para então concluir sobre a pós-menopausa.
Introdução
Participo ativamente da rede dos Estados Gerais da Psicanálise
para a qual edito textos, faço traduções, construo
a página de links do site www.estadosgerais.org e participo do
grupo de interlocução Feminilidade e Menopausa. Já
realizamos dois Encontros Latino-Americanos em São Paulo, no espaço
do Instituto Sedes Sapientiae nos quais participei como expositora, debatedora
e coordenadora em diversas mesas redondas. Também fui intérprete
de Anne Geneviève Roger tanto no encontro de 2001, quanto no de
2003.
No nosso último Encontro Internacional realizado no fim de outubro
passado, no Rio de Janeiro, cujo tema era o psicanalisar hoje, ouvimos
conferencistas e leitores. A estrutura de congresso clássica não
propiciou uma maior participação dos ouvintes, o que em
São Paulo buscamos enfatizar, em pequenas mesas os autores ganham
espaço para expor seus textos que haviam circulado antes da reunião
pela rede de computadores favorecendo uma maior aproximação
entre autores e participantes.
Nos textos apresentados nesse último encontro enfatiza-se a sociedade
pós-moderna como sociedade de consumo, do controle, do espetáculo
e da imagem que propõe o culto ao corpo, à saúde
e faz do spa e das academias de ginástica os templos da atualidade,
com o tempero das dietas especiais e suplementos vitamínicos e
hormonais, para a reposição de substâncias essenciais
ao organismo e os anti-oxidantes que nos garantirão a juventude
eterna.
Essa economia do corpo tem como contrapartida um intenso processo de medicalização
no qual se incide sempre sobre o corpo como se fosse ele o foco do mal-estar.
Nunca se consumiu tanto medicina e medicamentos como hoje. Pleiteamos
decididamente agora não apenas a longevidade e a juventude eterna,
mas também a imortalidade, através das novas tecnologias
reprodutivas e em particular da clonagem. A produção da
saúde se instituiu assim como norma fundamental para a existência
do cidadão pós-moderno. Os jornais e revistas se transformaram
nos veículos de sua difusão, com matérias sempre
recheadas por entrevistas e comentários de doutos especialistas
no assunto, resume Joel Birman, do comitê executivo.
Em "O Futuro de uma Ilusão", de 1927, Freud postulava
que a subjetividade própria de sua época estava sustentada
por um laço social que reúnia três elementos: a ilusão
religiosa, a lealdade política ao monarca e a proibição
de pensar a sexualidade. Mário Fuks, participante do encontro propõe
considerar que as políticas de globalização neoliberal
procuram instituir um tipo perverso de laço social constituído
por outros três elementos articulados: a compulsão consumista,
a fascinação midiática e a desmentida tecnológica
do sofrimento humano. Essa composição subordina, com suas
lógicas específicas, todos os recursos que o desenvolvimento
tecnológico põe à sua disposição. Sabemos
que a tecnologia neuroquímica e seus megamonopólios ocupa
um lugar de vanguarda e promove práticas que se encaixam milimetricamente
na lógica do consumo.
E faz aqui uma análise da conduta adictiva, toxicomaníaca
dizendo que o consumidor tem que ser um sujeito que varia sistematicamente
de objeto de consumo sem alterar sua posição subjetiva.
O elemento novo da série é melhor porque é novo.
O anterior não cai por já se ter feito a experiência
subjetiva da relação com este objeto particular, mas pela
pressão do novo, que vem desalojar o anterior sem se inserir em
nenhuma história. Assim, tanto o sujeito como o objeto se mantém
inalterados e o mercado pode expandir-se ampliando a oferta de objetos(1).
Isto se inscreverá como mal-estar através da figura do toxicômano,
sinalizando a produção generalizada de uma subjetividade
adictiva.
Na função de remendar e recuperar dos colapsos narcísicos
os sujeitos que sentem a ameaça da exclusão nessa sociedade
descrita acima, a psiquiatria tende a ficar sobredeterminada por estas
lógicas. O contato interpessoal se reduz ao mínimo, a interlocução
tende a ser evitada. Toda a operação se destina a identificar
os signos e os enunciados que possam corresponder aos itens de uma classificação
construída, tomando como referência os efeitos esperados
do fármaco. Se o primeiro remédio não satisfaz, substitui-se
por outro, ou agrega-se a outro, ou se combina um terceiro, e se retira
o primeiro, num automatismo que não tem fim. Dessa maneira, não
só a reflexão psicopatológica mas até os traços
próprios de uma clínica e seus historiais estão se
evaporando, des-subjetivando o próprio médico, agente dessa
operação. Nesse sentido que ganha importância a iniciativa
de uma abordagem multidisciplinar da saúde mental da mulher proposta
pelo Dr. Joel Rennó.
A psicanálise, uma "psiquiatria-que-aceita-as-lágrimas"
- como a definiu Rickman e foi recuperada por Pichon Rivière- e
muitas práticas socioculturais, notadamente as artes, são
capazes de promover processos de subjetivação elaborativa
e criativa, operam um corte e uma subversão nessas lógicas
alienantes. Partem da disposição para uma experiência
subjetiva que implica a "alteração" recíproca
dos sujeitos da experiência, abrindo a possibilidade de um percurso
imprevisível que permita ir desenhando a "patologia contemporânea
singular" de cada um deles.
Se o que se diz com estes comentários salta aos olhos de todos,
não exigindo de nós nenhuma perspicácia especial
para reconhecer a sua evidência, o mal-estar de hoje se manifesta
também de outras maneiras. Estas se articulam intimamente com o
dito mal-estar corpóreo. Com efeito, as depressões se transformaram
no flagelo psíquico da atualidade, ao lado da síndrome do
pânico e das compulsões em geral. Dentre estas, as toxicomanias
se destacam, tanto no registro do uso das drogas pesadas, comercializadas
pelo narcotráfico, quanto no uso dos psicofármacos prescritos
pela medicina e pela psiquiatria, contribuindo para a tendência
ao apagamento do sujeito face a um corpo que fala em seu lugar mas do
qual não se decifra a mensagem. Tudo bem documentado pela mídia.
Basta ver na internet como se vende remédios para emagrecer mesmo
sem receita médica e soluções para satisfazer a mulher
com o aumento de pênis, de virilidade, de potência. Vende-se
o falo, que nos propiciaria a felicidade, esses o engodo de quem não
se desfez do olhar do Outro para constituir a sua imagem, do discurso
do Outro para construir o seu, e está à mercê da propaganda.
Temos assim a imagem de corpo que se quiser. O corpo pode ser alterado,
transformado, cortado. Tira-se gordurinhas localizadas, são inseridas
nos bons lugares se de lá não se deslocarem, nunca o abordando
na sua dimensão de invólucro do espírito que pode
se elevar acima da mesquinharia da imagem bonita. A decisão de
atuar sobre o corpo é muito mais arriscada e difícil do
que atuar sobre as palavras que se escrevem nele como as marcas das separações
a elaborar.
Gostaria que tomássemos num bemol acima o que vamos abordar sobre
o luto simbólico da morte do imaginário e do discurso vigente.
Depressão, luto e melancolia
A abordagem psicanalítica da depressão trata do processo
de luto a ser elaborado. Entendemos pela psicanálise que, na própria
constituição da subjetividade, permanece uma distância
entre o eu e o ideal de eu, que é uma imagem idealizada de si mesmo
que o amor ou ódio dos pais sustenta. Como Narciso, o homem também
é suportado por uma imagem. E como disse um amigo: "A gente
sonha ser melhor do que se é". Essa distância entre
o eu e o ideal nos deixa em permanente insuficiência em relação
ao que esperamos de nós. A insatisfação é
inerente a essa constituição enquanto não matarmos
em nós essas ilusões. A menina tem o luto da ausência
de pênis a fazer. O menino de que nem mesmo aquilo que tem é
suficiente para fazer o gozo da mãe. Ambos estarão confrontados
à falta em ser, à incapacidade em satisfazê-la.
Cada vez que uma de nossas ilusões desmorona, entramos em depressão
e elaboramos a queda dessa imagem, fazemos o luto dessa morte. Portanto,
o luto é um processo normal e benéfico pois se cai em si,
desinveste-se objetos supostos nos completar, nos dar a felicidade. É
esse o processo.
Na melancolia, porém, há identificação do
eu com o objeto perdido, como disse Freud: "A sombra do objeto cai
sobre o eu" e o melancólico se recrimina, culpando-se pela
perda, pune-se através de um supereu severo que ataca seu próprio
eu. O que torna o processo mais patológico e difícil de
ser elaborado.
Com efeito, a morte é algo da ordem do irrepresentável.
Não há vivência possível da morte e por isso
é sentida como desamparo, perda, castração.
Vemos as castrações, as perdas passarem por nossas vidas,
pode-se supor que fazemos mais lutos do que nos damos conta. Primeiro,
o parto que nos separa da mãe, em seguida, o desmame que nos separa
do seio, objetos estes para sempre perdidos, nunca mais reencontrados
embora sempre desejados, depois o controle esfincteriano elimina os cuidados
maternos com as trocas de fraldas e é quando a criança pode
enfim se nomear eu e deixar de ser ele, o objeto de cuidados. Passagens
todas doloridas que deixam marcas que serão infinitamente repetidas
através de ansiedade, angústia e depressão face à
separação e perdas. Cada novo luto nos remete aos primeiros
e às maneiras como nos defendemos.
Mas também, nessas passagens, conforme vamos nos distanciando do
Outro materno, vamos ganhando uma vida cada vez mais autônoma, vamos
nos subjetivando. Em outras palavras, vamos perdendo a imagem da mãe
toda poderosa e deixando de nos identificar com o falo imaginário
decaído da mãe, pois no princípio o bebê é
o falo para a mãe, e assim a vê onipotente.
Difícil esta passagem para homens e mulheres, uma das defesas é
a recusa em acreditar que a mãe não o tem, que no entanto
se constata. Assim, correndo antes que a cortina do teatro se feche, veremos
mulheres procriar no momento da menopausa numa tentativa de desmentir
a inexorabilidade da vida, assim como os homens que querem aproveitar
o máximo as últimas ereções, utilizam-se de
Viagra e ainda podem procriar. A geração Viagra já
está nascendo, filhos de pais-avós.
Nessa época, algumas mulheres se apaixonam por um homem que podia
ser seu filho, numa escolha de objeto incestuosa, daí o nome de
Complexo de Jocasta dado por Marie Christine Laznik ao seu livro. Marie
Christine nota que a menopausa é pouco estudada e comentada tanto
pelas mulheres, médicos e pesquisadores quanto pelos analistas.
Começa estudando a visão da menopausa nas antigas culturas
e como o intervalo de 15 anos ou mais que a separa da velhice é
desconsiderado por diversos autores e textos antigos que fazem coincidir
menopausa e velhice. Examina o que diz os diferentes autores que abordam
a questão: Helene Deutsch, Simone de Beauvoir, Françoise
Dolto, Madeleine Gueydan, a única psicanalista que escreveu sobre
o assunto, Therez Benedek, americana que diz que o climatério é
uma fase do desenvolvimento, o discurso francês têm questionado
a noção de fase e de desenvolvimento a partir dos aportes
da psicanálise que mostra que não há linearidade
nesse processo, pelo contrário, há retroação,
Marie Langer, Ruth Lax, Dinora Pines, Helena Harris entre outros, para
enfim se aprofundar em Freud e Lacan.
Se o ser mulher está associado à vida reprodutiva, como
nas antigas culturas, o fim da capacidade de procriar significa, para
muitas mulheres, o fim da vida. Eis aqui uma das interpretações
que podem justificar a depressão na menopausa em muitas mulheres
e mais ainda naquelas que não tiveram filhos.
Também, cada menstruação representa a promessa e
a perda de um filho. Mas na quarentena, a promessa predomina. Algumas
que sentiam depressão no momento das regras, poderão mais
tarde, quando não as terão mais, ficarem ciclicamente deprimidas,
no momento em que as teriam. A psicanálise revela o conteúdo
desse estado de sofrimento: "Se eu fosse ainda mulher, eu as deveria
ter".
Assim na menopausa, a depressão estaria associada à perda
da imagem corporal, à supressão da menstruação,
quando termina o serviço de uma mulher para a espécie, ao
mesmo tempo, em que o resto de seu corpo começa a mostrar os sinais
do envelhecimento. A menopausa é, para muitos autores, uma humilhação
narcísica difícil de ser superada pois a mulher perde tudo
o que havia recebido na puberdade. Essa desvalorização de
não ser mais mulher, da perda do que possuía, beleza, filhos,
marido que a faz cair em depressão. Assim, a depressão está
relacionada ao luto do investimento na beleza e na sedução,
para o qual a sociedade do culto ao corpo em que vivemos não contribui
nem um pouco.
É preciso analisar, se só um sintoma e sua gravidade pode
nos obrigar, a menopausa será uma boa oportunidade para fazê-lo.
É preciso um retorno sobre si-mesma. Quando são encorajadas
a fazê-lo, as mulheres começam a falar de seus projetos e
idéias. Esse retorno à própria vida é o tempo
de compreender e o retorno principal a ser feito seria sobre a relação
mãe-filha. Daí se pode vislumbrar o futuro, se se fez o
luto do passado. É uma nova etapa da vida que começa, rica
em possibilidades.
As saídas
Os destinos encontrados pelas mulheres na pós-menopausa podem
se caracterizar por auto-sacrifício, colocando-se ao serviço
de filhos e netos, de pobres, desvalidos e convalescentes; pelo refúgio
na doença e nos sofrimentos físicos ou pela devoção
religiosa. Como tudo na vida depende de para onde dirigimos nosso olhar,
onde focamos nossa atenção, desejamos, com Madeleine Gueydan
e Marie Christine Laznik, não colocar o acento sobre a morbidez
desse acontecimento, mas sobre as novas possibilidades de escolha que
se abrem em termos de criação e de sublimação.
Como a vida é uma viagem sem volta, podemos finalmente abandonar
o que vai ficando para traz e seguir adiante, a noção de
perspectiva se abre, ganha-se distância do passado e se pode construir
um novo eu numa atividade escolhida. Há tantos ganhos positivos
na menopausa que os homens não deveriam desprezar as mulheres climatéricas.
É no momento da menopausa que muitas mulheres superam a frigidez,
alcançando um gozo vaginal, ao renunciar à mãe enquanto
objeto proibido. Também são dadas, nessa época, as
condições para a erosão da famosa inveja do pênis.
Ao se libertarem da mãe, não esperam mais encontrá-la
no homem e podem usufruir os prazeres do sexo e do amor. Saem daquele
estado de insatisfação perene por não encontrarem
o gozo absoluto só alcançado com a mãe na vida intra-uterina.
Liberadas do medo da rejeição como objeto sexual, liberadas
do papel de objeto sexual, que produz a erotização do corpo
todo enquanto o falo para o homem deixam de representar a fantasia para
ele, ganham liberdade para ser e criar, para a emergência de talentos
e qualidades que nem suspeitavam. Liberadas da maternidade ganham disponibilidade
para se jogarem numa vida de competição, numa profissão,
nos negócios.
Há nesse período necessidade de uma reorientação
da libido, da energia psíquica que libertada pode ser investida
em novas atividades, com uma certa virilização da mulher
mas sem trair valores femininos. Surge a possibilidade de investimento
em objetos culturais e artísticos, em uma vida intelectual e pública,
em carreiras políticas onde terão que tomar a palavra, trocando
os charmes corporais pelo charme do dizer.
Para aqueles que gostariam de se aprofundar recomendo vivamente o livro
de Marie Christine Laznik, O Complexo de Jocasta e que continuemos nosso
diálogo em pequenos grupos. Fico à disposição.
Muito obrigada.
Notas:
(1) LEWKOWICZ, I. "Subjetividad adictiva: un tipo psico-social históricamente
instituído", Revista de la Asociación Argentina de
Psicología y Psicoterapia de Grupo, Buenos Aires, Tomo 21, Nº.
1.
Datos de la autora: Mirian Giannella, tel: 3726.8119, Rua Comendador Elias
Assi, 429, Butantã, São Paulo, Capital, Brasil, giannell@uol.com.br.
www.giannell.sites.uol.com.br
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